
O gesto de Maxon Marinho é nobre, porém, controverso
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Há três anos, uma matéria divulgada pela BBC News Brasil trazia na abertura uma reflexão provocativa: "Você prefere ser operado por um médico que dissecou um cadáver ou por aquele que apenas estudou em peças sintéticas?". A provocação, feita pelo professor de Anatomia da Universidade Federal do Ceará (UFC), Erivan Façanha, expunha um problema crônico enfrentado por diversas instituições de ensino superior no país: a escassez de cadáveres para ensino e pesquisa em cursos de Medicina.
Recentemente, o tema voltou a ganhar repercussão na mídia e a reportagem foi amplamente redistribuída. Ao tomar conhecimento do déficit que afeta a formação acadêmica em todo o Brasil, o lavrense Maxon Marinho, 52 anos, casado, tomou uma decisão: procurou o Curso de Medicina da Universidade Federal de Lavras (Ufla) e oficializou um documento legal para doação do seu corpo pós-morte para a instituição.
Em conversa com a reportagem do Jornal de Lavras, Maxon destacou que sua atitude fundamenta-se em dois pontos centrais. O primeiro deles reflete sua visão sobre a utilidade do corpo humano após a morte.
"Eu acho um desperdício jogar fora um material de estudo tão complexo quanto o corpo humano. Depois que morremos, eu não vejo sentido em enterrar / cremar o corpo se existe a opção de utilizar o corpo para estudos. Depois que eu vi a matéria no jornal informando da dificuldade que as universidades tem na captação de corpos para estudo, vi que a melhor saída para mim seria esta, doar o corpo para uso nos estudos universitários", declarou.
O segundo ponto levantado por Maxon refere-se à qualidade da formação dos profissionais de saúde que atenderão a população no futuro. Ele avalia que o aprendizado exclusivo por meio de peças sintéticas apresenta limitações práticas relevantes.
"A formação de um médico, usando bonecos anatômicos não é o ideal para que ele desenvolva o conhecimento necessário na área médica. Acredito que haja uma falha nesse ponto, pois estudar usando um boneco facilita muito e não representa a realidade vivida por um médico em atendimentos em urgências e emergências. Então eu acabei perguntando pra alguns amigos médicos se realmente fazia sentido essa questão, de que se havia realmente uma diferença crucial no estudo em corpos reais e bonecos anatômicos e todos foram enfáticos em dizer que não existe comparação entre um e o outro. Que todo médico deveria estudar em corpos reais e não em bonecos anatômicos", explicou.
Sem herdeiros diretos, o morador de Lavras afirma que preferiu destinar seu corpo à ciência a optar pelos métodos tradicionais de sepultamento. "Mesmo porque, eu não queria ser enterrado e sim cremado", revelou, concluindo com uma reflexão sobre solidariedade e legado acadêmico. "Acredito que o mundo seria um lugar muito melhor se houvesse mais empatia e solidariedade em nossa sociedade e que a morte não fosse tratada como o fim, mas sim como uma oportunidade de aprendizado das gerações futuras", finalizou.
Nota da redação
Por razões de privacidade, os dados pessoais constantes no documento de doação, como endereço e numeração de documentos, foram omitidos pela reportagem nesta publicação para preservar a privacidade do doador.

