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Publicada em: 04/07/2026 15:20 - Atualizada em: 04/07/2026 15:25
Copa, emoção e coração: quando a paixão pelo futebol exige cuidado - entrevista com Dr. Marcos Cherem

Cherem, médico cardiologista do Hospital Vaz Monteiro, uma referência em cardiologia de alta complexidade em Minas Gerais

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Em jogos decisivos, a torcida vive cada lance como se estivesse dentro de campo: o coração acelera, a respiração muda e a tensão toma conta. Mas até que ponto essa emoção pode representar risco real à saúde? O Jornal de Lavras conversou com o cardiologista Dr. Marcos Cherem, que é uma referência na área, sobre os efeitos do estresse intenso no organismo, os grupos que precisam de atenção redobrada e os sinais que não devem ser ignorados.

Jornal de Lavras: Dr. Marcos Cherem, em uma partida de Copa do Mundo, a emoção de um gol, de um pênalti ou de uma decisão nos minutos finais pode realmente fazer mal ao coração?

Dr. Marcos Cherem: Pode, especialmente em pessoas que já têm doença cardiovascular ou fatores de risco. A emoção intensa não "cria" uma doença do coração do nada, mas pode funcionar como gatilho em quem já tem alguma vulnerabilidade. Nesses momentos, há liberação de adrenalina, aumento da pressão arterial e aceleração dos batimentos. Para a maioria das pessoas, isso passa sem consequências, mas para alguns pacientes, pode precipitar dor no peito, arritmias ou até um infarto.

Jornal de Lavras: O que acontece no organismo naquele momento de tensão - por exemplo, durante uma cobrança de pênalti ou uma defesa no último minuto?

Dr. Marcos Cherem: O corpo entra em estado de alerta. É uma resposta natural ao estresse: o coração bate mais rápido, a pressão sobe, os vasos sanguíneos podem se contrair e o coração passa a exigir mais oxigênio. Em uma pessoa saudável, esse pico costuma ser transitório. Mas, em quem tem hipertensão, placas de gordura nas artérias, histórico de infarto ou predisposição a arritmias, essa sobrecarga pode desorganizar o equilíbrio do sistema cardiovascular.

Jornal de Lavras: Isso é apenas uma preocupação teórica ou há evidências de que jogos decisivos aumentam atendimentos cardíacos?

Dr. Marcos Cherem: Há evidências. Estudos realizados durante grandes competições esportivas observaram aumento de eventos cardiovasculares em dias de jogos decisivos, principalmente nas primeiras horas da partida. Isso não significa que assistir futebol seja perigoso para todos, nem que a emoção seja a causa única do problema. O ponto central é: em pessoas predispostas, a combinação de estresse intenso, pressão alta, álcool, cigarro, alimentação pesada e pouco sono pode ser um gatilho importante.

Jornal de Lavras: Quem deve redobrar a atenção durante os jogos?

Dr. Marcos Cherem: Principalmente quem já teve infarto, angina, insuficiência cardíaca, arritmias ou pressão alta. Também precisam estar atentos os pacientes com diabetes, colesterol elevado, tabagismo, sedentarismo, obesidade ou histórico familiar importante de doença cardíaca. Outro grupo que merece cuidado é o das pessoas que já fazem tratamento e, em dia de jogo, esquecem remédios, exageram no álcool, dormem mal ou fumam mais do que o habitual.

Jornal de Lavras: Quais sintomas indicam que o torcedor não deve esperar o jogo acabar para procurar ajuda?

Dr. Marcos Cherem: Dor, aperto, peso ou queimação no peito, falta de ar importante, suor frio, náuseas, palidez, desmaio, tontura intensa ou palpitação forte acompanhada de mal-estar. Dores no peito que irradiam para o braço, costas, pescoço ou mandíbula chamam ainda mais atenção. Se o sintoma é forte, novo, persistente a melhor orientação é parar, não minimizar e procurar atendimento de urgência imediatamente.

Jornal de Lavras: Muita gente pensa: "deve ser só ansiedade". Como diferenciar?

Dr. Marcos Cherem: Nem sempre é possível diferenciar com segurança sem avaliação médica. Ansiedade pode causar palpitação, aperto no peito e falta de ar, mas esses mesmos sinais também podem aparecer em problemas cardíacos. Por isso repito: quando há dor no peito, falta de ar intensa, desmaio, suor frio ou um mal-estar fora do padrão, o mais prudente é tratar como sinal de alerta. Em cardiologia, tempo faz diferença.

Jornal de Lavras: Que cuidados simples ajudam o torcedor a aproveitar a Copa com mais segurança?

Dr. Marcos Cherem: O primeiro cuidado é não abandonar o tratamento: quem usa remédio para pressão, diabetes, colesterol, arritmia ou outra condição deve manter tudo em dia. Também recomendo evitar excesso de bebida alcoólica, não misturar álcool com estimulantes, não fumar, hidratar-se bem e preferir alimentos mais leves. Se perceber que a tensão passou do limite, vale afastar-se por alguns minutos, sentar-se, respirar lentamente e retomar o controle. Torcer faz parte da vida, mas o coração precisa estar no jogo com segurança.

Jornal de Lavras: Para encerrar, que mensagem o senhor deixa ao torcedor que vive intensamente cada partida?

Dr. Marcos Cherem: A mensagem é simples: torça, comemore e viva a Copa com alegria - mas respeite os sinais do corpo. Futebol é emoção, encontro e celebração. Se aparecer dor no peito, falta de ar, suor frio, desmaio ou palpitação com mal-estar, não espere o apito final. Procure ajuda. Nenhum resultado em campo é mais importante do que a vida.



 
 


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