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Publicada em: 04/06/2026 19:08 - Atualizada em: 04/06/2026 19:13
História de Lavras: a onda de incêndios que marcou o passado da cidade

Jardim Hotel, o segundo incêndio criminoso em Lavras. Hoje está fazendo 62 anos que o casarão foi consumido pelo fogo

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O dentista e fotógrafo Rogério Salgado utilizou Inteligência Artificial para recriar a impressionante cena do Jardim Hotel em chamas. A imagem, gentilmente enviada por ele à nossa redação, serviu de inspiração para resgatarmos a história dos incêndios criminosos que assombraram Lavras na década de 1960. Hoje, dia 4 de junho, está fazendo 64 anos que o Jardim Hotel foi consumido pelo fogo, foi o segundo incêndio de uma sequência. Veja vídeo:

Os incêndios criminosos

História de Lavras - do acervo de Efemérides de Eduardo Cicarelli. Dados reais e históricos, mas escritos não de forma jornalística, mas em forma de uma narração histórica romantizada:

Noite de 13 de maio de 1962; o silêncio era algumas vezes quebrado por um ou outro grupo de rapazes frequentadores das mesas de sinuca do Bar Tujague que subiam conversando pelo meio da rua, já que naquela época poucos carros circulavam pela cidade. Outras vezes, pelo barulho de um tropeço de algum boêmio solitário nos trilhos dos bondes ou nos paralelepípedos polidos da praça Dr. Augusto Silva; de vez em quando, ouvia-se alguém cantarolando um bolero que ouvira inúmeras vezes em um dos bares da zona boêmia da rua Álvaro Botelho. De barulho constante mesmo, somente o vento que agitava cadenciadamente as folhas das palmeiras do Kemper, que num movimento de vai-e-vem, parecia reverenciar a brisa fria da noite.

De repente alguém grita que o sobrado do capitão Evaristo estava pegando fogo; passava pouco mais das 11 horas da noite de domingo. Os gritos acordaram os motoristas de praça que dormiam dentro de seus confortáveis Fords ou Buiques e que faziam ponto em frente à igreja do Rosário.

Algumas pessoas adiantaram-se e arrombaram uma das portas do armazém da Camig, verificaram então que o fogo já havia tomado grande parte do térreo do sobrado de quase duzentos anos; as labaredas, impelidas pelos produtos químicos armazenados, já ardiam nos barrotes de óleo bálsamo e jacarandás lavrados à mão pelos servis e de maneira desrespeitosa, agrediam a noite e formando uma névoa cerrada em tom de ouro em um céu de carvão.

Imediatamente, a família do Dr. Eugênio Azevedo, proprietária e ocupante da parte superior do prédio foi avisada do perigo. Uma multidão solidária dirigiu-se ao local, despertada pelos gritos e pelo estalar da madeira, como se gritasse ao ser devorada avidamente pelo fogo ardente.

Dezenas de pessoas ajudaram na remoção de alguns móveis do casarão e na tentativa da extinção das chamas. O delegado regional de polícia, João Piragibe, compareceu imediatamente ao local e auxiliado pelos soldados do 8º Batalhão de Infantaria, comandados pelo coronel Washington Dias de Aragão, isolaram a área.

Outras providências também foram tomadas: enquanto o delegado regional João Piragibe solicitava por telefone a assistência do Corpo de Bombeiros em Belo Horizonte, os soldados do 8º retiravam os estoques das casas comerciais próximas ao casarão. Até mesmo as agencias dos bancos Hypothecário e da Lavoura foram esvaziadas.

Cinco horas depois do início do fogo, chegava de Belo Horizonte uma guarnição do Corpo de Bombeiros, que diante dos olhos assustados dos lavrenses que a essa hora já tomava quase toda praça Dr. Augusto Silva, cuidaram apenas do rescaldo.

Além da residência do Dr. Eugênio Azevedo, o fogo destruiu completamente o armazém da Camig, um açougue, um gabinete odontológico, uma barbearia, um Café e o Bar do Lucílio Schmidt, um alemão radicado em Lavras.

O espetáculo, de tamanha proporção, desenhado pelo sinistro até então desconhecido pelos lavrenses, causou uma profunda impressão no ânimo público, já que apenas pequenos incêndios verificaram-se em Lavras.

Nos arquivos da Prefeitura Municipal, encontramos um documento bastante curioso: no dia 20 de novembro de 1918, Castro Souza, administrador de obras, consulta ao Agente Executivo sobre o conserto de uma "bomba de incêndio", que segundo ele, encontrava-se em estado bastante avançado de destruição.

O agente executivo Dr. João Augusto da Silva Penna, responde de maneira bastante criativa a indagação do servidor municipal:

"Há 30 anos deu-se um começo de incêndio na casa do senhor Francisco Modesto e cunhados, ali no Largo da Matriz, tendo bastado uns baldes d'água para a extinção das chamas, sendo de se referir, como dado histórico, que os bombeiros foram: José Moreira, Pedro Salles, Christóvam Fernandes e outros meninos; agora ouve um incêndio na casa do senhor João Moreira, casa que foi destruída em poucos minutos. Por esta progressão, se conclui que só daqui há 29 anos teremos outro incêndio, portanto não justifica o gasto.

Dr. Pena"

Ainda perdurava no espírito do solidário povo lavrense o sentimento pelo ocorrido com o sobrado do capitão Evaristo Alves de Azevedo, e passado apenas 22 dias, outro incêndio choca ainda mais os moradores de Lavras.

A noite do dia 4 de junho ainda estava caindo quando se deu o alarme; mais uma vez o fogo devorava, diante da plateia perplexa, outro casarão dos templos da Vila de Lavras: o Jardim Hotel, antigo Hotel Moreira, na praça Dr. Augusto Silva.

O fogo que iniciou no porão, alcançou em minutos o assoalho do hotel, os portais, janelas, móveis e o engradamento do telhado, desabotoando o manto negro da noite, destruiu totalmente um mercadinho anexo, um escritório de venda de imóveis e uma fábrica de urnas funerárias da Casa Juca Procópio.

Toda operação anteriormente montada pelos comandados do coronel Washington Dias Aragão, comandante do 8º Batalhão, para debelar o incêndio do casarão dos Azevedos, foi repetida: cordões de isolamento, evacuação dos edifícios vizinhos e a retirada de móveis e utensílios do Jardim Hotel. Enquanto isso o delegado João Piragibe, comunicava em Belo Horizonte com o Corpo de Bombeiros.

Os bravos soldados do fogo chegaram a Lavras na madrugada e pouco puderam fazer, apesar de terem trazidos além da viatura, um "carro-bomba", recentemente adquirido pelo Governo do Estado.

Os aspirantes José Aparecido Miranda, o cabo Antônio Costa e os soldados Elson Castanheira e Lázaro Miliorelli, todos integrantes do 8º Batalhão de Infantaria, além do enfermeiro da Rede Mineira de Viação Leônidas de Souza Lima e o funcionário da Companhia Lavrense de Eletricidade, Geraldo Erley, foram enaltecidos pela imprensa, que reconheceu o esforço descomedido e dedicação para amparar as pessoas que foram atingidas pelo sinistro.

"Seria sabotagem?" Questionava a população. "Não!" Acreditava a imprensa lavrense, "trata-se apenas de pura coincidência; uma fatalidade, o fogo provavelmente foi provocado por um curto-circuito ou uma ponta de cigarro atirado por algum desavisado", afirmavam.

No dia 9 de junho, quando a cidade ainda contemplava com profundo pesar às destruições do sobrado dos Azevedos e do Jardim Hotel, ao cair da noite, um imenso clarão toma conta da praça Dr. Augusto Silva; desta vez foi um casarão adquirido pelo coronel Thomaz de Aquino Alves de Azevedo, em 7 de março de 1854 para abrigar a Câmara Municipal.

O fogo ardia e devorava um depósito de móveis da Mobiliaria Aliança, um gabinete odontológico e parte da história de Lavras.

Agora não restava mais dúvida: os incêndios que se sucederam em menos de um mês eram criminosos. O pânico tomava conta dos lavrenses; boatos surgiam pelos quatro cantos.
"São os miseráveis dos comunistas!" Afirmavam categoricamente alguns. Na época o Brasil era comandando por João Belchior Marques Goulart, o Jango, primeiro presidente de esquerda da história do Brasil. Paralelamente aos boatos inúmeras pichações com as siglas M. A. C. (Movimento Anticomunista) ou CCC (Comando de Caça aos Comunistas), se espalhavam pela cidade. Os simpatizantes do Partido Comunista retrucaram e respondiam da mesma forma, na calada da noite: "Injustiça".

A intolerância dos extremistas já começava a preocupar a polícia que teve de armar um esquema especial: para conter os ânimos dos radicais e prender o incendiário.

Preocupado com a crescente intranquilidade, com os boatos, com a onda de telefonemas anônimos e com as cobranças, o prefeito Sylvio Menicucci convocou uma reunião, onde estiveram representantes do comércio, vereadores, autoridades civis e militares. Nesta reunião, que durou uma hora e vinte e cinco minutos, foram tomadas uma série de medidas, uma delas, a demolição do Theatro Municipal, que segundo alguns vereadores respaldados por comerciantes, poderia comprometer todo o quarteirão, inclusive o prédio da Prefeitura, caso fosse incendiado.

Essa absurda decisão tomada em grupo, e mais tarde atribuída injustamente apenas ao prefeito Sylvio Menicucci, causou uma perda irreparável para a memória e para a cultura de Lavras.

Outras medidas tomadas foram: policiamento em pontos estratégicos e a permanência da unidade do corpo de bombeiros, que havia voltado com o terceiro incêndio, o que foi conseguido pelo prefeito Sylvio Menicucci junto ao secretário de segurança Mauro da Silva Gouvêa.

Inúmeros eram os boatos espalhados, um deles, que os incêndios eram iniciados através de um pó químico que seria atirado pelo maníaco nos suspiros dos porões. Outros diziam que era uma bomba incendiária programada.

O fato é que os moradores de Lavras estavam intranquilos, telefonemas anônimos denunciavam pessoas, bilhetes de ameaças, qualquer cidadão suspeito era detido e levado para a cadeia pública e era preso para averiguações.

Ao anoitecer do dia 11 de junho, outro incêndio é iniciado em um sobrado na esquina da rua Chagas Dória com rua Lourenço Menicucci, felizmente foi socorrido a tempo e a suas chamas debeladas, causando pouco prejuízo, mas aumentando ainda mais a insegurança dos cidadãos.

Mais boatos: populares diziam ter visto dois homens correrem com a aproximação das pessoas momento antes do início do incêndio; outros afirmavam que um homem havia pulado o muro do sobrado carregando uma lata com estopa e um vidro de gasolina; "era um homem moreno e usava um chapéu e capa"; "era um homem claro de aproximadamente 20 anos"; era muitas versões, mas nada de concreto.

Grupos de pessoas despreparadas se armavam e faziam a ronda de suas casas; Lavras vivia um momento de apreensão, intranquilidade e desconfiança, todo mundo era suspeito.

Crescia ainda mais a pressão sobre o prefeito Sylvio Menicucci. A pressão popular era: "temos que demolir o cinema velho e o casarão dos Guadalupes." O cinema velho a que se referiam era o Theatro Municipal e o casarão dos Guadalupes era onde é hoje a Matos Calçados, na praça Dr. Augusto Silva. O Theatro Municipal veio abaixo para satisfazer as mentes perturbadas e alarmistas. Quanto ao casarão do major César Guadalupe, este permaneceu de pé por um bom tempo.

Na noite de 14 de junho, João Batista de Oliveira e Antônio de Oliveira, dois atiradores do Tiro de Guerra, quando subiam pela rua João Modesto de Souza viram um homem pular um muro de uma residência e imediatamente deram-lhe voz de prisão.

Conduzido à delegacia e entregue a guarda do delegado regional João Piragibe, verificou-se tratar do alemão Lucílio Schmidt, morador da rua Dona Emerenciana e proprietário de um bar no sobrado do capitão Evaristo, o primeiro a ser incendiado.

Schmidt era um homem trabalhador, honesto, bom pai de família, bom vizinho, bom marido e acima de qualquer suspeita. Trabalhou na RCA Victor em São Paulo por 20 anos, dono de uma ficha repleta de elogios, demitiu-se e com o dinheiro da indenização adquiriu uma casa em Lavras e comprou o bar.

Interrogado disse que não foi responsável pelo primeiro incêndio, mas pelos outros assumiu sua culpa. Quanto ao casarão da rua Chagas Dória, de propriedade da família Lourenço Menicucci, Schmidt disse "achar aquela casa muito antipática", daí a razão de tentar incendiá-la.

Pela resposta, percebeu-se tratar de um homem com problemas mentais sérios, apesar de sua aparente boa conduta e postura diante da sociedade lavrense, que assistia a tudo, perplexa diante da fragilidade e da incapacidade de julgar e condenar pessoas.

Lucílio Schmidt permaneceu preso por um pequeno período em Lavras e depois foi transferido para o então manicômio de Barbacena. Na década de 80 Schmidt foi visto naquela cidade trabalhando, como sempre fez, era proprietário de uma pequena banca de verduras.

 
 


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