
Gran Circo Norte-Americano, a maior tragédia do Brasil: 503 mortos (Imagem 1)
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História de Lavras e nacional - acervo de efemérides Eduardo Cicarelli. Os meses de dezembro, janeiro e principalmente fevereiro ocupam um lugar sensível na memória urbana brasileira. Ao longo das décadas, esse período ficou marcado por grandes incêndios que ceifaram centenas de vidas e expuseram falhas estruturais, omissões e tragédias humanas que atravessaram gerações. Em meio a esses episódios nacionais, Lavras também está presente - de forma silenciosa, mas profundamente humana - nessa história.
Na semana passada, em 27 de janeiro, completaram-se 12 anos do incêndio da Boate Kiss, em Santa Maria (RS). A tragédia, que matou 242 jovens, parou o Brasil e se tornou um marco doloroso sobre segurança em espaços coletivos (Imagem 2).
Já no dia 1º de fevereiro, a lembrança voltou ainda mais no tempo. Há exatos 51 anos, São Paulo vivia uma de suas maiores tragédias: o incêndio no Edifício Joelma. O prédio, localizado na avenida Nove de Julho, abrigava cerca de 750 trabalhadores. Às 8h50 daquela manhã, um curto-circuito em um aparelho de ar-condicionado no 12º andar deu início ao incêndio.
Sem heliporto e com as escadas rapidamente tomadas pela fumaça e pelo calor extremo, muitos ocupantes ficaram encurralados no terraço. O desespero levou pessoas a saltarem do edifício, em cenas que chocaram o país.
Entre as 191 vítimas fatais estava Sebastião Anacleto da Silva, o "Dinho", lavrense, ex-jogador de futebol e bancário. Dinho foi encontrado pelos bombeiros nas escadas do prédio, vítima de asfixia. A tragédia deixou ainda cerca de 300 feridos e teve repercussão internacional, inspirando o diretor John Guillermin na produção do clássico filme Inferno na Torre (Imagem 3).
Fevereiro também concentra outros incêndios emblemáticos da capital paulista. Em 24 de fevereiro de 1972, o Edifício Andraus, na avenida São João, foi consumido pelo fogo após uma sobrecarga elétrica no segundo andar. O prédio de 32 andares registrou 16 mortes e 330 feridos, incluindo executivos de multinacionais alemãs (Imagem 4).
No dia 14 de fevereiro de 1981, outro incêndio marcou São Paulo: o Edifício Grande Avenida, que abrigava a torre da Rede Record, foi atingido por um curto-circuito na sobreloja, ocupada pela Toyobo do Brasil. O fogo deixou 17 mortos. O número não foi maior porque o incêndio ocorreu em um fim de semana, quando cerca de 1,4 mil funcionários estavam de folga (Imagem 5).
Em 24 de fevereiro de 1984, o Brasil assistiu a uma das cenas mais chocantes de sua história recente. Em Cubatão, um erro operacional da Petrobras provocou o rompimento de um oleoduto, espalhando aproximadamente 700 mil litros de gasolina pela Vila Socó. As casas de madeira construídas sobre o mangue foram rapidamente consumidas pelas chamas. Oficialmente, 93 mortes foram registradas, mas estimativas apontam que o número real possa ultrapassar 500 vítimas, incluindo famílias inteiras e crianças que desapareceram dos registros escolares locais (quinta foto abaixo).
Embora fevereiro concentre muitos desses episódios, a maior tragédia por incêndio da história do Brasil ocorreu fora desse período. Em 17 de dezembro de 1961, em Niterói (RJ), um incêndio criminoso no Gran Circo Norte-Americano matou 503 pessoas - cerca de 70% delas crianças (Imagem 1)
O episódio ganhou contornos ainda mais dramáticos devido a uma greve de acadêmicos no Hospital Antônio Pedro, que dificultou o atendimento imediato às vítimas. O impacto foi tão grande que o Papa João XXIII chegou a pedir orações mundiais pelos feridos.
É nesse momento que Lavras entra novamente na história nacional, de forma heroica e pouco conhecida. Um grupo de profissionais da área da saúde saiu da cidade rumo a Niterói para auxiliar no atendimento aos quase dois mil feridos.
Naquele período, a escassez de medicamentos para queimaduras agravava ainda mais o cenário. Fármacos importados, essenciais para o tratamento, eram raros no Rio de Janeiro. Em Lavras, um homem que atuava no contrabando de mercadorias tomou uma decisão extrema: procurou as autoridades, confessou seu crime e entregou todo o seu estoque de medicamentos para salvar as crianças vítimas do incêndio.
O gesto de humanidade custou-lhe um processo judicial, mas terminou em absolvição. A Justiça reconheceu que, diante da tragédia, a vida falou mais alto.
Décadas depois, fevereiro continua sendo um mês de memória, alerta e reflexão. E, entre tantas histórias nacionais de dor, Lavras permanece ligada a esse passado - não apenas como local de origem de vítimas, mas também como cidade que, em um dos momentos mais sombrios do país, ajudou a salvar vidas.

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