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Enquanto milhares de pacientes brasileiros dependem de medicamentos à base de cannabis para controlar doenças que não respondem aos tratamentos convencionais, uma pesquisa desenvolvida na Universidade Federal de Lavras (Ufla) rompe barreiras científicas, regulatórias e sociais e se consolida como uma das mais avançadas do país na área de cannabis medicinal. Coordenado pela professora Vanessa Cristina Stein e gerenciado pela Fundecc (Fundação de Desenvolvimento Científico e Cultural), o projeto é resultado de cerca de 15 anos de estudos e alcançou um marco inédito no Brasil ao reunir autorizações raras para o cultivo in vitro e a manipulação genética da planta com fins exclusivamente científicos e medicinais.
Em um cenário ainda marcado por estigmas e desinformação, a pesquisa alia rigor técnico, persistência institucional e impacto social, contribuindo para o desenvolvimento de medicamentos mais seguros, acessíveis e padronizados. O trabalho posiciona a Ufla como referência nacional e reforça o papel da universidade pública na produção de conhecimento estratégico para a saúde.
Laboratório único no país, com autorizações inéditas
O laboratório coordenado pela professora Vanessa é o primeiro do Brasil credenciado simultaneamente pela Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) e pela CTNBio (Comissão Técnica Nacional de Biossegurança) para realizar cultivo in vitro de Cannabis sativa com fins exclusivamente científicos e medicinais.
Além dessas autorizações, a estrutura conta com permissão institucional para manipulação genética, seguindo protocolos rigorosos de biossegurança. Essa combinação de credenciamentos é rara no país e posiciona a Ufla em um patamar de referência nacional.
Na prática, o laboratório não realiza cultivo em campo, não possui qualquer vínculo com uso recreativo e não produz medicamentos para comercialização direta. Todo o trabalho ocorre em ambiente controlado, dentro de frascos de laboratório, com foco exclusivo na pesquisa científica da planta e de seus compostos.
Pioneirismo construído com rigor técnico
O processo de credenciamento do laboratório foi longo e complexo. Exigiu adequações estruturais, elaboração de protocolos específicos e o atendimento a exigências técnicas que levaram anos para serem cumpridas.
Até recentemente, nenhuma outra instituição brasileira reunia todas as autorizações necessárias para esse tipo de pesquisa. Apenas nos últimos anos, instituições como a Embrapa passaram a obter credenciamentos semelhantes, reforçando o caráter pioneiro do trabalho desenvolvido em Lavras.
Por que estudar a cannabis medicinal
A Cannabis sativa produz mais de 150 fitocanabinoides, compostos naturais com diferentes efeitos no organismo humano. Entre eles, dois se destacam na área médica: o CBD (canabidiol) e o THC (tetrahidrocanabinol).
O CBD não é psicoativo e está associado ao tratamento de epilepsia refratária, dores crônicas e distúrbios neurológicos. Já o THC é o principal composto psicoativo da planta e, em altas concentrações, é indesejável para a maioria das aplicações médicas.
Um dos grandes desafios científicos é que a própria planta pode aumentar a produção de THC em resposta ao ambiente, mesmo quando o cultivo tem finalidade exclusivamente medicinal. Esse comportamento eleva custos, gera perdas e dificulta a padronização dos medicamentos.
Atuação na origem do problema
A pesquisa desenvolvida na Ufla atua diretamente na origem desse desafio: a planta. Por meio de técnicas de biotecnologia e edição gênica, o grupo busca desenvolver plantas que já cresçam com teor reduzido de THC, diminuindo a necessidade de processos químicos posteriores.
O objetivo é tornar a produção mais segura, reduzir custos industriais e ampliar o acesso da população a medicamentos de qualidade, com maior controle sobre a composição dos compostos utilizados.
Parceria entre universidade e indústria
O projeto conta com parceria da Ease Labs, empresa farmacêutica especializada em medicamentos à base de cannabis.
Atualmente, a empresa cultiva a planta em países onde essa atividade é regulamentada, como a Colômbia, e importa o insumo para processamento no Brasil. A demanda apresentada à universidade é clara: reduzir ou eliminar o THC diretamente na planta, evitando processos químicos caros e complexos.
Os resultados obtidos na UFLA serão transferidos à empresa, que dará continuidade às etapas industriais até a disponibilização dos medicamentos à população.
Financiamento e entraves regulatórios
Embora a cannabis ainda seja alvo de debates sociais, o principal obstáculo enfrentado pela pesquisa no campo do financiamento não esteve relacionado a preconceito institucional, mas a entraves burocráticos e regulatórios.
Ao longo dos anos, a professora Vanessa submeteu entre 15 e 20 projetos, muitos deles inviabilizados pela incompatibilidade entre o prazo dos projetos (24 a 36 meses) e o tempo de validade das autorizações da Anvisa, além de exigências administrativas rigorosas e longos trâmites documentais.
O projeto atual recebeu apoio financeiro da Fapemig (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Minas Gerais), após um processo extenso de recursos, adequações técnicas e reavaliações administrativas, com reconhecimento do mérito científico da proposta.
Pesquisa básica hoje, impacto na saúde amanhã
Embora classificada como pesquisa básica, a iniciativa tem papel estratégico para a área da saúde. O laboratório gera conhecimento e material que subsidiam pesquisas em modelos animais, estudos clínicos conduzidos por grupos parceiros e o desenvolvimento de medicamentos mais seguros e acessíveis.
Para o professor Fernando Henrique Ferrari Alves, farmacêutico, pesquisador e diretor do campus da Ufla em São Sebastião do Paraíso, o rigor científico é essencial nesse processo.
"Quando falamos em cannabis medicinal, estamos tratando de um processo que exige controle de qualidade, validação científica e rigor farmacêutico em todas as etapas. A pesquisa desenvolvida na Ufla é fundamental para garantir que os compostos utilizados tenham origem conhecida e concentração controlada", afirma.
Informação como aliada contra o preconceito
Além da burocracia, o preconceito social ainda é um desafio presente. Para a equipe envolvida, esclarecer, informar e comunicar com responsabilidade também faz parte do trabalho científico.
Mais do que estudar uma planta, a pesquisa desenvolvida na Ufla contribui para qualificar o debate público, reduzir a desinformação e construir caminhos para que a ciência chegue, de forma segura e responsável, a quem mais precisa.




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