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Publicada em: 26/11/2018 18:14 - Atualizada em: 27/11/2018 08:30
(História de Lavras) Há 100 anos, os lavrenses choravam as mortes das vítimas da Gripe Espanhola
A Gripe Espanhola matou de 50 a 100 milhões de pessoas em todo o mundo entre 1918 a 1919, número superior às mortes das duas Grandes Guerras mundiais

Sobrado onde viveu o casal Mariana Veiga Salles e José de Salles Botelho, vítimas da Gripe Espanhola, na Zona Norte de Lavras. Hoje o sobrado pertence a Murilo Barbosa. Foto: Jornal de Lavras

 

 

  Jornal de Lavras:  (35) 9 9925.5481    @jornaldelavras     @jornaldelavras    @jlavras    

Em 1918, Lavras vivia momentos áureos, a cidade já contava com um catálogo telefônico com 49 assinantes; no início do ano, em 6 de janeiro, saía mais um jornal, o "Idéia Nova", sob a direção do advogado João da Costa Ribeiro.

Lavras já era uma cidade conhecida em todo país, estudar em Lavras era um privilégio, a Escola Agrícola, o Instituto Evangélico, o Colégio de Lourdes e o Grupo Escolar projetavam o seu nome pelos quatro cantos do Brasil.

Em 14 de fevereiro, realizou-se aqui a Assembleia Geral da Igreja Presbiteriana. O concílio reuniu pastores de São Paulo, Rio de Janeiro, Botucatu, Santos, Friburgo, Bragança Paulista, Descalvo, Campinas, Valença, Belo Horizonte, Caxambu, Sorocaba, Araguary, Nepomuceno, Sergipe, Salvador, Curitiba e Niterói. Foi sem dúvida um grande acontecimento, onde o nome da cidade era divulgado por todo país.

Já contávamos com uma nova igreja, uma construção moderna, ampla e confortável, pois em 1917, com toda pompa, era inaugurado o templo da nova Matriz de Sant'Anna.

No mesmo ano da inauguração da Matriz, o Presidente da Câmara determinou que fossem instaladas, em diversos pontos da cidade, nove caixas de madeira para coleta de lixo, prática que existia apenas nos grandes centros. Nas caixas a frase: "Põe aqui a casca de fructa, a ponta de cigarro, o papel inútil, tudo quanto possa sujar a rua".

Outra novidade, também privilégio apenas dos grandes centros, era o engraxate ambulante, aqui, o Paulino Marcos, que usando de uma caixa e uma cadeira, percorria as principais ruas de Lavras engraxando os sapatos dos cavalheiros daquela época; era um sucesso, Lavras com hábitos de cidade grande.

A cidade se expandia, a necessidade de novos espaços tornava-se premente. A Câmara Municipal e o Instituto Evangélico assinaram em 6 de maio um contrato para abertura de uma rua nos fundos da Chácara, ligando a avenida Pedro Salles a passagem inferior da Rede Sul Mineira, na estrada do Macaia.

A Câmara ficou responsável pela abertura da rua, seguindo o projeto elaborado pelo engenheiro J. Berreda, doado pela Mesa Curadora do Instituto Evangélico. Esta rua chama-se Dr. Samuel Rhea Gammon, uma justa homenagem ao grande educador.

Mas nem tudo era festa; Lavras às vezes era sacudida por tristes notícias, como por exemplo, a morte do tenente coronel Alfredo Júlio Lacerda, político republicano de muita influência, foi juiz de paz, delegado de polícia e comandante da Guarda Nacional, e que morreu no dia 8 de abril daquele ano.

Passou a forte geada de junho que destruiu plantações e matou vários animais na zona rural; entrou o segundo semestre com novas perspectivas.

No dia 5 de agosto de 1918, o capitão Francisco Ribeiro de Carvalho, comunicava ao Agente Executivo João da Silva Penna, através de um ofício, que no dia 4 de agosto, no recinto do Colégio Lavrense, às 17 horas, foi realizada uma assembleia geral, onde foi instalada definitivamente a Cruz Vermelha Brasileira, Filial de Lavras.

No balcão e nas mesas da luxuosa Confeitaria Americana, de José Alves Alvarenga, mais tarde de Fenelon Coutinho, inaugurada em 3 de fevereiro de 1916, a sociedade lavrense se reunia e o assunto era a reinauguração do Theatro Municipal com a apresentação da ópera Aída, pela Companhia Lírica Rotoli Billoro, em fevereiro de 1917 e que ainda repercutia intensamente, já que aquela casa de espetáculo, uma réplica do Scala de Milão, movimentava a cidade constantemente, com as apresentações de importantes companhias teatrais.

Outros assuntos que ainda povoavam às mesas da Confeitaria e também do luxuoso Bar Municipal, eram a primeira Grande Guerra e o Mal de Dakar, uma gripe que estava assolando vários países, conhecida também como Gripe Espanhola.

Em 20 de outubro, o jornal "O Município" informava que a epidemia da gripe já havia chegado a Minas Gerais. Na matéria, o articulista pedia calma a população e que se preparasse para a chegada do terrível mal, com algumas receitas como: água cloroformizada com água filtrada ou fervida, magnésia, Salol, Betol, anti-febre e xarope de Água de Flores de Laranjeira.

Outros jornais editados na capital traziam notícias da catástrofe, também recomendava alguns remédios como sal de cozinha com água fervida; outros como sumo de salsa e café forte, também aconselhavam o uso de álcool canforado, para friccionar a testa e as narinas. Também era receitada bastante limonada, comprimidos de quinino e gargarejo com água filtrada ou fervida e água oxigenada.

Mas a terrível epidemia avançava de maneira cruel e avassaladora deixando um rastro de dor, morte e sofrimento, e no dia 2 de novembro, Dia de Finados, como um tributo a morte, a cruel enfermidade chega a Lavras, onde registrou-se o primeiro caso.

Imediatamente a Câmara Municipal, através de seu presidente, o Dr. João Augusto da Silva Penna, ofereceu a comissão de socorro, criada para atender às vítimas do funesto pesadelo, um auxílio pecuniário e outros que forem necessários no decorrer dos acontecimentos.

Além da ajuda financeira, a Câmara dirigiu ao Dr. Carlos Chagas um telegrama solicitando a remessa urgente de medicamentos para atender a população de baixa renda do município.

No dia 8 de novembro, o Presidente da Câmara liberou em caráter extraordinário uma verba bastante representativa. O documento, que se encontra no arquivo da Prefeitura Municipal de Lavras, contém os seguintes dizeres:

 

"O Presidente da Câmara Municipal considerando que grassa atualmente na cidade a epidemia da gripe que ataca grande número de pessoas pobres; considerando que é dever primordial do poder público vir ao encontro dos necessitados com socorro pronto e eficaz; considerando que a convocação da Câmara em seção extraordinária retardaria providências que considera urgentes; considerando que sulas populis lex est, resolve destinar à importância de dois contos de réis (2:000$000) para socorro imediato à pobreza, ficando essa importância desde já a disposição.

 

Lavras, 8 de novembro de 1918

Dr. João Augusto da Silva Penna

Presidente da Câmara Municipal de Lavras Minas Gerais."

 

Em menos de uma semana mais de uma centena de pessoas caíram em decorrência da epidemia; e a morte, com seu manto negro e alfanje reluzente ceifava vidas preciosas em Lavras, indiferente da classe social, cor, credo, raça ou idade.

Em Lavras, todas as famílias foram atingidas pelo funesto pesadelo; em 20 de novembro, faleceu Maria Galdina de Souza, esposa do professor Azarias Ribeiro de Souza; em 25 de novembro morreu o Dr. Augusto Torquato de Andrade Botelho, juiz municipal e irmão do Dr. Álvaro Botelho; Olga Hermeto da Costa Pinto, esposa do Dr. José da Costa Pinto; José Pedro de Carvalho Júnior, contador do Banco de Crédito Real; José dos Santos Dias, funcionário da Estrada de Ferro e inúmeros outros anônimos, que renderam a vida ao Criador em decorrência da epidemia maléfica, que como uma nuvem negra e espessa cobria o mundo todo, onde o pranto era a única coisa ouvida.

No dia 29 de novembro, foi a vez de José de Salles Botelho, com 34 anos de idade, casado com Mariana Veiga Salles e que era sobrinho do Dr. Augusto Torquato de Andrade Botelho. O seu sepultamento foi realizado no mesmo dia; ao cair da tarde do dia 29, sexta-feira, em bonde especial, o cortejo fúnebre subiu até a nova Matriz, onde foi celebrada uma missa de corpo presente e a encomendação de sua alma, posteriormente, seu corpo foi levado até a sepultura.

O cortejo sempre acompanhado de perto pela esposa, também enferma, Mariana Veiga Salles e por seus quatro filhos: Elvira, a mais velha, com 10 anos de idade; Maria Antonieta; João e Paulo. Uma das filhas do casal, Maria Antonieta é a mãe da conhecida deputada federal por Minas Gerais Maria Elvira.

De regresso ao casarão onde viviam, no alto de uma colina no lugar hoje denominado Vila Mariana - casarão este ainda existente - Mariana Veiga Salles foi diretamente para o leito, morrendo algumas horas depois.

Mais uma vez, grande parte da população lavrense voltou aquela vivenda pousada sobre o alto do morro, parecendo que ali residia a ventura e a felicidade; enganadora ilusão; pois em poucas horas, se fez sentir ali o hálito frio da morte por mais de uma vez, deixando órfãos quatro crianças, sendo a mais velha com 10 anos de idade.

Mariana, que contava com 28 anos de idade, ao contrário de José, era protestante e seu corpo foi encomendado pelos reverendos Jorge Goulart e Samuel Rhea Gammon, sendo em seguida, sepultada ao lado do esposo.

O funesto mal agia também de maneira impiedosa na região: centenas de pessoas perderam a vida nas vilas de Nepomuceno, Perdões, Conceição do Rio Grande, hoje cidade de Ijaci, Macaia, Retiro dos Pimentas, Santo Antônio da Ponte Nova, hoje cidade de Itutinga, Itumirim e outras localidades, onde a morte se fez sempre presente ao lado do terrível mal de Dakar.

O médico Paulo Menicucci e o coronel Augusto Salles, instalaram no saguão do prédio da Câmara Municipal, na rua Sant'Anna, onde hoje funciona a Casa da Cultura, um hospital com cem leitos para atender aos pobres atacados pelo nefasto mal.

Atendendo aos apelos, várias senhoras da sociedade lavrense enviaram donativos pecuniários e roupas de cama para a comissão dos auxílios do hospital improvisado.

No Gymnásio de Lavras, hoje Instituto Gammon, por iniciativa do seu reitor, o Dr. Samuel Rhea Gammon e sob a direção de Genoveva Marchant, foi instalado um posto de atendimento aos doentes do sexo feminino.

Na Escola Normal, hoje Colégio Nossa Senhora de Lourdes, também foi instalado um hospital da Sociedade São Vicente de Paulo, sob a direção dos vicentinos e das irmãs de caridade daquele estabelecimento.

Além dos hospitais da Escola Normal, da Câmara Municipal e do Gymnásio de Lavras, havia também a Santa Casa de Misericórdia e o hospital da Cruz Vermelha, montado pelo capitão Francisco Ribeiro de Carvalho. Este último, tratava-se de um hospital de campanha que deslocava-se para as áreas mais afetadas pela Gripe Espanhola.

No dia 17 de novembro de 1918, segundo o relatório divulgado pela imprensa local, até este dia, 426 pessoas havia contraído o vírus da gripe, dos quais, 7 tinham falecido; e em 24 de novembro, em apenas uma semana, o número de pessoas vítimas do mal de Dakar em Lavras, passou de 426 para 1.026 pessoas e cerca de 30 óbitos.

Como tudo que chega, um dia vai embora, a Gripe Espanhola também deixou a cidade de Lavras; o mal começou a decrescer a olhos vistos. Os hospitais improvisados foram desmontados; o cinema voltou a ter fluência e as ruas voltaram a receber os lavrenses que desfilavam pela cidade ao cair da tarde. A saúde voltou e com ela a alegria, traduzindo a tranquilidade.

Apesar de tudo e do transtorno causado, o número de óbitos atingiu pouco mais de 40 pessoas em Lavras; pouco... muito pouco em números em relação a outras localidades que chegaram a perder até mesmo um quarto de sua população. Em todo mundo morreram entre 50 a 100 milhões de pessoas, foi a maior pandemia de todos os tempos.

Em Lavras, felizmente o trabalho preventivo e educativo funcionou de maneira satisfatória, graças ao trabalho de homens como Paulo Menicucci e Augusto Salles, da comissão encarregada do serviço hospitalar, e de voluntários como Samuel Rhea Gammon, José Luiz de Mesquita, Albino Henrique Ferreira Duque, Francisco Ribeiro de Carvalho, Zoroastro Alvarenga, Mello Nogueira, os Vicentinos, as irmãs de caridade da Escola Normal e da Santa Casa e inúmeros outros que de uma forma ou de outra, ajudaram a amenizar a catástrofe que abateu sobre nossa cidade e que enlutou tantas famílias de nossa sociedade.

 

Por Edurdo Cicarelli

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