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Publicada em: 14/06/2018 15:00 - Atualizada em: 14/06/2018 19:47
(Por Leonardo Assad) A primeira Copa de um garotinho
O jornalista esportivo Leonardo Assad terá uma coluna no Jornal de Lavras durante a Copa do Mundo

"Seleção brasileira de 1994, a minha primeira Copa do Mundo"

 

 

  Jornal de Lavras:  (35) 9 9925.5481    @jornaldelavras     @jornaldelavras    @jlavras    

Foi anunciado na véspera da abertura da Copa do Mundo que a edição de 2026 será Estados Unidos, México e Canadá, a primeira da história em três países. Escolha coerente, pois a estrutura já está pronta, inclusive os 23 estádios que deverão ser utilizados, sendo necessária apenas uma reforma básica em nove deles. Depois de 32 anos o maior evento futebolístico retornará para a terra do Tio Sam, assim como uma nova história irá surgir.

A vida é feita de memórias e a gente nunca esquece a primeira Copa. Em 1994, o garoto de 8 anos se desiludiu após a morte de seu maior ídolo em um trágico acidente no GP de San Marino de Fórmula 1, fato ocorrido no dia 1° de maio. Sem Ayrton Senna nas pistas, o esporte não fazia mais sentido. Quem iria erguer a bandeira brasileira enquanto tocava o "Tema da Vitória"? Mal sabia ele que outra modalidade tomaria conta de seu coração.

Nascido no ano de 1986, não viu a bola rolar no México e em 1990, Copa da Itália, só queria assistir Jaspion, Jiraya e Changeman na extinta TV Manchete. Nada de Fórmula 1, muito menos de futebol, embora tivesse uma camisa do Cruzeiro em que não há registro de uso. Nem mesmo seu pai lembra, talvez por não ter conseguido convertê-lo. Sabe-se lá como, mas alguns anos depois virou corinthiano.

A dor começou a ser superada quando um primo comprou o álbum de figurinhas da Copa do Mundo que seria disputada nos Estados Unidos e lhe convidou para completar. Certa vez, levou um bolo cheio de repetidas e resolveu bater com os amigos no pátio do CEC-Objetivo, escola na qual passou toda a infância e que não existe mais. Perdeu quase tudo e ainda tomou a maior bronca quando chegou em casa. Foi ali que o garoto teve o primeiro contato com o futebol, ainda sem um time pra torcer.

Sem saber quem era o tal do Romário, assistiu o 1x1 contra a Suécia na fase de grupos, o primeiro pela televisão. Ele vibrou com o amarelinho na tela do SBT e não pelo gol que igualou o marcador no primeiro minuto do segundo tempo, obviamente. Antes disso, o Brasil havia vencido por 2x0 a Rússia e vencido por 3x0 a seleção de Camarões, mas não se recorda do que estava fazendo enquanto a pelota rolava nestes confrontos.

Nas oitavas de final tivemos a audácia de eliminar a seleção americana no Dia da Independência dos Estados Unidos (04 de julho), gol de Bebeto e assistência de Romário. As ruas do centro de Lavras ficaram tomadas de alucinados gritando "Brasil... Brasil... Brasil".  Formou-se um congestionamento semelhante ao das principais avenidas de São Paulo.

O adversário seguinte foi a Holanda e exibiram este jogo em um telão instalado na Praça Dr. Augusto Silva, exatamente onde fica a meia-lua. Romário, Bebeto e Branco garantiram o placar de 3x2 e a passagem para a semifinal. Reprisou-se a imagem do Bebeto comemorando seu gol fazendo o gesto de carregando um bebê 500 vezes, mas a homenagem foi justa, visto que seu filho caçula, Matheus, havia nascido dois dias antes no Rio de Janeiro.

Suécia novamente pela frente, pizza e Guaraná na casa dos tios. Jorginho, hoje técnico do Vasco da Gama, cruzou pela direita e o baixinho Romário subiu sozinho no meio de dois postes e cabeceou para o chão.  Parecia o Dadá Maravilha e o famoso beija-flor, o goleiro Thomas Ravelli não teve a menor chance e o Brasil estava na final da Copa depois de 24 anos. A última havia sido em 1970, justamente contra a Itália.

Era 17 de julho e a mãe do garoto não gostava de futebol, mas sintonizou na TV Globo. O Rose Bowl, estádio localizado na cidade de Los Angeles, contou com a presença de 94.194 torcedores. Outro primo que na época morava nos Estados Unidos e havia comparecido em todos os jogos do Brasil, não conseguiu ingresso para a final.

Brasileiros e italianos ficaram entediados com o 0x0 que persistiu no tempo regulamentar e na prorrogação. Romário perdeu um gol sem goleiro e Mauro Silva acertou a trave de Pagliuca, os dois únicos lances emocionantes. Sem ter a real noção do que aquilo representava, viu pela primeira vez uma decisão por pênaltis.

Demetrio Albertini e Alberigo Evani converteram para a Itália, enquanto que Franco Baresi, Daniele Massaro e Roberto Baggio desperdiçaram. O Brasil teve um aproveitamento quase perfeito se não fosse a defesa de Gianluca Pagliuca em cobrança de Márcio Santos, mas Romário, Branco e Dunga  deixaram suas marcas e a seleção canarinho sagrou-se Tetracampeã Mundial.

Se na telinha Galvão Bueno abraçava Pelé e gritava "É Tetra... É Tetra... É Tetra" igual um maluco, do outro lado uma nação inteira estava nas ruas comemorando e segurando com orgulho a bandeira nacional, assim como ocorreu em 1970. A diferença é que estávamos em uma democracia, não na ditadura.

O garoto mencionado era, obviamente, eu. Ali começou minha trajetória de amor com o futebol e a Copa do Mundo, sem planos para o futuro.

Qual foi a sua primeira Copa do Mundo?

Por Leonardo Assad Aoun, jornalista

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